Viagem a Belmonte

Memória da presença Judaica

Dois dias de viagem, 28 e 29 de Maio, organizada pela Casa do Educador do Seixal, com muita qualidade e harmonia, como já é costume.
Lá fomos, ao raiar da aurora, rumo a Tomar, onde começou o nosso “estudo” desta cultura que fez história pelo mundo e, particularmente no nosso país. Na verdade, o conhecimento e a aceitação das culturas dos povos aumenta em nós uma consciência de pluralidade que nos humaniza, engrandece e integra no mundo.
Desta vez fomos na rota das judiarias e começámos pela de Tomar, situada numa rua bonita, florida e acolhedora. Fica no centro desta linda cidade.
A nossa guia explicou, com todo o pormenor, a história deste lugar de culto que foi encerrado no final do século XV e elevado á categoria de Monumento Nacional em 1921.
A comunidade judaica de Tomar remonta ao século XIV ao serviço da Ordem dos Templários e, mais tarde, a Ordem de Cristo que lhe sucedeu. Na altura, a percentagem de judeus espanhóis rondava os 30 a 40%, na sequenciada expulsão dos judeus, de Espanha em 1492.
A construção da Sinagoga foi feita por ordem do Infante D. Henrique que, de alguma forma, protegia a comunidade judaica. Acontece que, em 1496, com a conversão forçada dos judeus ao Cristianismo decretada por D. Manuel I a judiaria é abolida e a sinagoga passa a ser cadeia pública. Ao longo dos anos seguintes foi objeto de várias utilizações e passou a lugar de culto cristão (Ermida de S. Bartolomeu) e ainda serviu de palheiro e de armazém de mercadorias.
Foi adquirida por um judeu polaco, Samuel Shewartz em 1923. Este senhor era investigador da cultura hebraica e suportou as obras de limpeza e acabou fazendo a doação do edifício ao Estado, com o objetivo de ser utilizado como museu “Luso-Hebraico”.
Depois de uma volta panorâmica pela cidade partimos para Castelo Branco, onde, no Restaurante Kalifa, nos foi servido um bom almoço.
Continuámos a nossa visita, passando pela “Casa da Memória”, que parece ser uma homenagem ao povo judaico que viveu na cidade e contribuiu significativamente para o deu desenvolvimento económico / comercial, mas também sofreu as agruras da Inquisição.
Este espaço museológico engloba a recepção e loja, onde se podem adquirir publicações e produtos Kosher. No mesmo piso, o espaço museológico sobre a fundação da Judiaria, rituais e informações sobre as festividades judaicas. Também estão em exposição imagens dos objetos de tortura usados pela Inquisição. Na transição dos dois pisos está o Memorial de vítimas albicastrenses que contém 329 nomes de pessoas que foram perseguidas e mortas devido à sua identidade religiosa.
O primeiro piso é dedicado às figuras Albicastrenses que se destacaram, como foi o caso de Amato Lusitano.
No segundo piso vimos diversos materiais que fazem parte do acervo desta cultura e que servem para estudo da temática judaica.
Ainda tivemos um espaço de tempo (curto!), para andar pela cidade e destaco aqui a beleza dos jardins, muito especialmente do “Jardim do Paço”, onde o verde, a cor e os lagos conferem um encanto especial, em conjunto com as muitas esculturas espalhadas por todo o jardim.
Lá fomos, então, para Belmonte, onde ficámos alojados num hotel simpático, com vista para a Serra da Estrela, mas um pouco longe da povoação o que nos proporcionou um serão muito agradável e bom convívio, animado pelas vozes de colegas que cantam muito bem.
Pela manhã de domingo, caminhámos pelo centro histórico de Belmonte, deliciados com a paisagem, as casas de pedra e os núcleos museológicos existentes.
Belmonte tem muito para nos mostrar: Castelo, Igreja de Santiago e Capela dos Cabrais, Torre de Centrum Cellas, Solar dos Cabrais, Igreja, Capela do Divino Espírito Santo, Cruzeiro de Caria, Estátua de Pedro Álvares Cabral, Tulha dos Cabrais, Museu Judaico, Sinagoga, Judiaria, Museu dos Descobrimentos, Museu do Azeite, Ecomuseu do Zêzere, Casa Etnográfica, Casa da Roda, Museu do Queijo e, na verdade, toda a povoação em si, é um museu a céu aberto.
Entrámos no Museu Judaico.
A comunidade que, durante séculos, resistiu aos éditos de expulsão dos Reis Católicos, ao decreto de expulsão ou conversão de D. Manuel I, ao olhar vigilante da Inquisição e às penas do seu tribunal, é aqui muito bem recordada. Peças da Idade Média ao séc. XX, utilizadas por judeus e cristãos-novos no quotidiano ou nas práticas religiosas, encontram-se neste espaço museológico para que possamos conhecer melhor esta cultura e que retrata a longa história da comunidade judaica na região, que resistiu a longos anos e séculos de perseguição religiosa. É o primeiro museu deste género em Portugal, localizado no último reduto da comunidade criptojudaica, aí instalada por volta do século XV.
Foi inaugurado a 17 de abril de 2005 pelo ministro dos assuntos parlamentares, Augusto Santos Silva e é o primeiro espaço em Portugal dedicado à história do judaísmo.
É considerado um dos 50 melhores do mundo e tem mais de 30 mil visitantes por ano. Os conteúdos têm sido constantemente mudados e aprofundados, numa dinâmica rigorosa e muito interessante que o torna tão atrativo. A representação do quotidiano é feita com diversos utensílios e roupas, como por exemplo os que eram utilizados no fabrico do pão ázimo (pão da pressa) ou os que serviam para rituais de morte de animais para consumo. Não falta

o conhecido Menoráh, o Hanukkah (9 braços), o Shofar (instrumento de sopro), o Mezuzah Shemá Israel, que é colocado na ombreira direita da porta a sete palmos do chão e contém uma oração retirada do AT, Dt,6,4 “Escuta Israel, O Senhor é nosso Deus, o Senhor é uno”.
Também lá estão as peças para as cerimónias religiosas, livros, pedras com inscrições, pinturas e outros elementos de elevada importância e rigor históricos estão devidamente expostos nas diversas salas do museu, que se divide em três pisos e que conta, no seu interior, com um auditório e com o Centro de Estudos Judaicos Adriano Vasco Rodrigues.
O Museu Judaico tem contribuído de forma significativa para o aumento de turistas estrangeiros em Belmonte. É frequente ver pelas ruas da vila muitos visitantes de origem judaica, sobretudo de Israel, Estados Unidos da América e Brasil.
Um dos temas em foco no Museu Judaico é a "Obra do Resgate", movimento que, nos anos 20 e 30 do século XX, teve como objetivo levar para o judaísmo normativo os criptojudeus que viviam em Portugal, nomeadamente em Belmonte. Quem deu a conhecer ao mundo a comunidade judaica de Belmonte foi o polaco Samuel Schwarz, que tem o destaque merecido.
A presença de uma Sinagoga comprova a existência de uma comunidade judaica viva, numerosa e ativa. Em Belmonte, uma comunidade de judeus está referenciada desde o século XIII, testemunhada por uma placa com uma epígrafe pertencente a uma primitiva Sinagoga, a qual apresenta a data de 1297, mas a presença de judeus na vila não foi um incidente isolado, tendo-se conhecimento da existência de outras judiarias nas cidades, vilas e aldeias da região. Com a expulsão de judeus decretada por D. Manuel, posteriormente, a instauração da Inquisição, muitos judeus abandonaram a vila e os que ficaram professavam a sua religião em segredo.
Atualmente a Comunidade Judaica de Belmonte, cuja constituição legal teve lugar em 1988, tem uma Sinagoga nova e um cemitério próprio. A sinagoga foi inaugurada em 1996, encontrando-se orientada para Jerusalém e tem o nome de Bet Heliahu, em homenagem ao judeu benemérito que ordenou a sua construção. Neste momento são cerca de 175 judeus que a frequentam.
Visitámos também o castelo de onde se tem uma panorâmica muito bonita daquela região.
No museu do Azeite observámos os utensílios para confecionar o azeite e que já não se usam na atualidade.

Almoçámos no “Farol da Esperança” e partimos com a esperança de voltar.

No caminho ainda parámos em Constância, onde o Zêzere se une ao Tejo. Conquistada aos mouros em 1150, foi feita vila em 1571 por carta de D. Sebastião. Aquando das Invasões Francesas foi profundamente vandalizada. Mais tarde viria a ser recuperada conservando hoje muitos pontos de rara beleza paisagística, arquitetónica e arqueológica.
É também terra de poetas. A tradição garante que aqui viveu Camões. A Casa dos Arcos está intimamente ligada à sua memória. Vasco de Lima Couto e Alexandre O’Neill estão ainda bem vivos na memória coletiva.
E mais ricos de saber regressámos ao anoitecer. Foi uma viagem bem organizada e onde não faltou o espírito de grupo, a alegria e a sensação de pertencermos a “uma casa” que nos liga e nos une.

Obrigada, colega Emília, colega Alda e a todos os que integraram este périplo cheio de beleza e cultura.

Maria Sebastiana Romana

2022-05-29

Momentos durante a visita

Clicar no centro da fotografia para ver o slide show

Um pensamento sobre “Viagem a Belmonte

  1. É com orgulho que recordo esta viagem da Casa do Educador, especialmente os momentos de convívio muito saudáveis, sem esquecer a serenata no jardim do hotel, que nos aproximam enquanto sócios da CES, alunos da Unisseixal, acompanhantes e familiares!
    Como sempre há pequenos pormenores
    Obrigada a todos pelo vosso contributo para engrandecer esta casa “CES” que muito estimamos!
    Venha a próxima, aguardamos com ansiedade!

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